segunda-feira, 18 de outubro de 2010
As memórias do médico...
E é justamente no resgate desse sonho que eu queria simbolizar a minha singela homenagem aos colegas de Campos.
Que todos busquemos no recôndito de nossos arquivos mentais, a memória daquela semente que germinou. A memória do sonho. A memória do idealismo. A memória do sentimento. A memória da empatia. A memória da simplicidade. A memória da ingenuidade. A memória da bondade. A memória da imaginação. A memória das fantasias. A memória da expectativa. A memória dos anos de faculdade. A memória da vontade da desistência. A memória das noites perdidas de estudo. A memória do primeiro plantão. A memória de ter feito um parto, uma sutura, aliviado uma dor...pela primeira vez. A memória da residência. A memória do sufoco financeiro. A memória de ter ido a pé para o Hospital. A memória do primeiro fracasso. A memória dos arrependimentos. A memória de ter perdido a memória. E finalmente a memória de poder resgatar as memórias. E quem sabe, de forjar memórias do futuro. De forjar memórias projetadas. De forjar memórias em nossos filhos. De forjar memórias em nossos netos. De chorar. De ter saudade. De voltar a sonhar. De voltar aos primeiros ideais, aos primeiros sentimentos, a sentir empatia, a ser ingênuo, alegrar-se por ser bom. Enfim, chorar ao escutar de alguém que não pode nos pagar materialmente um: "muito obrigado doutor(a)!"
Flávio Mussa Tavares
sábado, 5 de junho de 2010
O HOMEM NÃO ACEITA MAIS FICAR TRISTE
Compartilho com os amigos do portal essa entrevista do professor e médico psiquiatra Miguel Chalub, dada a Adriana Prado na "ISTOÉ" número 2115 dessa semana.
O médico aponta o uso desnecessário de remédios para curar simples tristezas. Aponta também lobby da indústria farmacêutica como má influência e médicos mal informados ou despreparados como cúmplices. No fundo parece que a busca humana pela felicidade (prazer negativo ou positivo) encontra uma nova "solução". E quer solução mais moderna que uma pílula? Só se fosse por download mesmo.
“Uma das maiores autoridades brasileiras em depressão, o médico diz que, hoje, qualquer tristeza é tratada como doença psiquiátrica. E que prefere-se recorrer aos remédios a encarar o sofrimento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 – atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem do problema. Para o psiquiatra mineiro Miguel Chalub, 70 anos, há um certo exagero
nessas contas. Ele defende que tanto os pacientes quanto os médicos estão
confundindo tristeza com depressão. “Não se pode mais ficar triste, entediado,
porque isso é imediatamente transformado em depressão”, disse em entrevista à
ISTOÉ.
Professor das universidades Federal (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ele afirma que os psiquiatras são os que menos receitam antidepressivos, porque estão mais preparados para reconhecer as diferenças entre a “tristeza normal e a patológica”. Mas o despreparo dos demais especialistas não seria o único motivo do que o médico chama de “medicalização da tristeza”. Muitos profissionais se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. “Os laboratórios pagam passagens, almoços, dão brindes. Você, sem perceber, começa a fazer esse jogo.”
ISTOÉ- Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?
Miguel Chalub - Porque estão sendo computadas situações humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais ficar
entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado em
depressão. É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É transformar
um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das situações, numa
entidade patológica.
ISTOÉ- Por que isso aconteceu?
Miguel Chalub - A palavra depressão passou a ter dois sentidos. Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a pessoa estava triste, mas com uma tristeza
profunda, vivida no corpo. A própria postura mostrava isso. Ela não ficava
ereta, como se tivesse um peso sobre as costas. E havia também os sintomas
físicos. O aparelho digestivo não funcionava bem, a pele ficava mais espessa.
Mas, nos últimos anos, a palavra depressão começou a ser usada para designar um
estado humano normal, o da tristeza. Há situações em que, se não ficarmos
tristes, é um problema – como quando se perde um ente querido. Mas o
homem não aceita mais sentir coisas que são humanas, como a tristeza.
ISTOÉ- A que se deve essa mudança?
Miguel Chalub - Primeiro, a uma busca pela felicidade. Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque, aí, justifica: “Eu não sou feliz porque estou
doente, não porque fiz opções erradas.” Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo,
à tendência de achar que o remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a
busca pela pílula da felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.
ISTOÉ - O que diferencia a tristeza normal da patológica?
Miguel Chalub - A intensidade. A tristeza patológica é muito mais intensa. A normal é um estado de espírito. Além disso, a patológica é longa.
ISTOÉ- Quanto tempo é normal ficar triste após a morte de um ente querido, por exemplo?
Miguel Chalub - Não dá para estabelecer um tempo. O importante é que a tristeza vai diminuindo. Se for assim, é normal. A pessoa tem que ir retomando sua
vida. Os próprios mecanismos sociais ajudam nisso. Por que tem missa de sétimo
dia? Para ajudar a pessoa a ir se desonerando daquilo.
ISTOÉ - Ainda há preconceito com quem tem depressão?
Miguel Chalub - Não. É o contrário. A vulgarização da depressão diminuiu o preconceito, mas criou outro
problema, que é essa doença inexistente. Antes, a pessoa com depressão era
vista como fraca. Hoje, as pessoas dizem que estão deprimidas com a maior
naturalidade. Não se fica mais triste. Se brigar com o marido, se sair do
emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Pode até ser que
alguém fique realmente com depressão, mas, em geral, fica-se triste. O
sofrimento não significa depressão. E não justifica o uso de medicamentos.
ISTOÉ - Os médicos não deveriam entender este processo?
Miguel Chalub - Os médicos não estão isentos da ideologia vigente. O que acontece é: você vem ao meu
consultório. Eu acho que você não está deprimido, que está só passando por uma
situação difícil. Então, proponho que você faça um acompanhamento psicoterápico.
Você não fica satisfeito e procura outro médico, que receita um antidepressivo.
Ele é o moderno, eu sou o bobão. Para não ser o bobão, eu receito um
antidepressivo logo. É uma coisa inconsciente.
ISTOÉ - Inconsciente?
Miguel Chalub - Os médicos querem corresponder à demanda. Senão, o paciente sairá achando que não foi bem atendido. Receitando um antidepressivo, eles correspondem à demanda,
porque a pessoa quer ser enquadrada como deprimida. Mas há a questão dos
laboratórios. Eles bombardeiam os médicos.
ISTOÉ - A ponto de influenciar o comportamento deles?
Miguel Chalub - Se for um médico com boa formação em psiquiatria, mesmo que não seja psiquiatra, ele saberá rejeitar isso, mas outros não conseguem. Eles se baseiam nos
folhetos do laboratório. Não é por má-fé. Os laboratórios proporcionam muitas
coisas. Pagam passagens, almoços, dão brindes. O médico, sem perceber, começa a
fazer o jogo. Porque me pagaram uma passagem aérea ou me deram um laptop, acabo
receitando o que eles estão querendo.
ISTOÉ - O médico se vende?
Miguel Chalub - Sim. Por isso é que há uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibindo os laboratórios de dar brindes aos médicos. Nenhum laboratório
suborna médico, não que eu saiba, nem vai chegar aqui e dizer: “Se você
receitar meu remédio, vou lhe dar uma mensalidade.” Mas eles fazem esse tipo de
coisa, que é subliminar. O médico acaba tão envolvido quanto se estivesse
recebendo um suborno realmente.
ISTOÉ - Esse lobby é capaz de fazer um médico receitar certo remédio?
Miguel Chalub - Aí é a demanda e a lei do menor esforço. Se o paciente chegar se queixando de insônia, por exemplo, o que o médico deveria fazer era ensiná-lo como dormir.
Ou seja, aconselhar a tomar um banho morno, um copo de leite morno, por exemplo.
Mas é mais fácil, tanto para o paciente quanto para o médico, receitar um
remédio para dormir.
ISTOÉ - Os demais especialistas também receitam remédios psiquiátricos, não?
Miguel Chalub - Quem mais receita antidepressivos não são os psiquiatras, são os demais especialistas. Os psiquiatras têm uma formação para perceber que primeiro é
preciso ajudar a pessoa a entender o que está se passando com ela e depois, se
for uma depressão mesmo, medicar. Agora, os outros, não querem ouvir. O
paciente diz: “Estou triste.” O médico responde: “Pois não”, e receita o
remédio. Brinco dizendo o seguinte: se você for a um clínico, relate só o
problema clínico. Dor aqui, dor ali. Não fale que está chateado, senão vai sair
com um antidepressivo. É algo que precisamos denunciar.
ISTOÉ - Os psiquiatras deveriam ser os únicos autorizados a receitar esse tipo de medicamento?
Miguel Chalub - Não acho que seja motivo para isso. Os outros especialistas têm capacidade de receitar, desde que não entrem nessa falácia, nesse engodo.
ISTOÉ - Mas os demais especialistas estão capacitados para receitar essas drogas?
Miguel Chalub - Em geral, não.
ISTOÉ - É comum o paciente chegar ao consultório com um “diagnóstico” pronto?
Miguel Chalub - É muito comum. Uma vez chegou um paciente aqui que se apresentou assim: “João da Silva, bipolar.” Isso é uma apresentação que se faça? Quase respondi: “Miguel
Chalub, unipolar.” É uma distorção muito séria.
ISTOÉ - O acesso à informação, nesse sentido, tem um lado ruim?
Miguel Chalub - A internet é uma faca de dois gumes. É bom que a pessoa se informe. A época em que o médico era o senhor absoluto acabou. Mas a informação via Google ainda é
precária. Muitas vezes, a depressão, por exemplo, é ansiedade. Mas as pessoas
não querem conviver com a ansiedade, que é uma coisa desagradável, mas que
também faz parte da nossa humanidade. Tenho uma paciente que disse: “Ando com
um ansiolítico na bolsa. Saí de casa, me aborreci, coloco ele para dentro.”
Então é isso? Se alguém me fala algo desagradável, eu tomo um ansiolítico? Isso
é uma verdadeira amortização das coisas.
ISTOÉ - O que causa a depressão?
Miguel Chalub - Esse é um dos grandes mistérios da medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é conhecido, está ligado a uma substância chamada
serotonina, mas o que o desencadeia, não sabemos. Há teorias, ligadas à
infância, a perdas muito precoces, verdadeiras ou até imaginárias – como a
criança que fica aterrorizada achando que vai perder os pais. As raízes da
depressão estão na infância. Os acontecimentos atuais não levam à depressão
verdadeira, só muito raramente. Justamente o contrário do que se imagina. Mas
mexer na infância é muito doloroso. Não tem remédio para isso. Precisa de
terapia, de análise, mas as pessoas não querem fazer, não querem mexer nas
feridas. Então é melhor colocar um esparadrapo, para não ficar doendo, e
pronto. É a solução mais fácil.
ISTOÉ - O antidepressivo é sempre necessário contra a depressão?
Miguel Chalub - Quando é depressão mesmo, tem que ter remédio.
ISTOÉ - Há quem diga que hoje a moda é ter um psiquiatra, não um analista. O que sr. acha disso?
Miguel Chalub - As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o isolamento. Não buscar
psiquiatras e remédios. Em algum momento, isso pode ficar tão sério, tão agudo,
que a pessoa pode precisar de uma ajuda, mas para que a ensinem a
enfrentar a situação. Ensina-me a viver, como no filme. Não é me dar pílulas,
para eu ficar amortecido.
ISTOÉ - O que é felicidade para o sr.?
Miguel Chalub - A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa: a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a definição de felicidade, não de
saúde. Felicidade, para mim, é estar bem consigo mesmo e com o outro. Estar bem
consigo mesmo é também aceitar limitações, sofrimento, incompetências,
fracassos. Ou seja, felicidade também é ficar triste de vez em quando.”
sábado, 26 de dezembro de 2009
VENDA DE ANTIDEPRESSIVOS NO BRASIL CRESCE 45%
Venda de antidepressivos no Brasil cresce 44,8% em 4 anos, diz pesquisa
Transtornos mentais são a 3ª causa de afastamento do trabalho no país.
Crescimento econômico favorece consumo; especialista alerta sobre uso.
Ligia Guimarães
A venda de medicamentos antidepressivos e estabilizadores do humor cresceu 44,8% no Brasil em quatro anos, aponta levantamento realizado a pedido do G1 pela IMS Health, instituto de pesquisa que faz auditoria do mercado de medicamentos para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O volume de vendas desses medicamentos cresceu de R$ 674,7 milhões nos 12 meses acumulados até outubro de 2005 para R$ 976,9 milhões no mesmo recorte até outubro de 2009. As valores referentes a 2005 foram atualizados com base nos reajustes máximos permitidos pela Anvisa, que considera também a inflação do período.
O tatuador Cezar Marchetti cortou o uso de antidepressivos, mas manteve os calmantes. O mercado brasileiro de antidepressivos cresce acima da média mundial há pelo menos cinco anos, segundo Marcello Monteiro, diretor da IMS Health de linhas de negócios para América Latina e responsável pelo levantamento.
“O Brasil faz parte de um grupo de países classificados como “farmaemergentes”: Brasil, Rússia, Índia, Coréia, México e Turquia. Juntos, eles respondem por 50% do crescimento mundial do mercado de medicamentos”, afirma o executivo.
Dados da Previdência Social apontam que os transtornos mentais e comportamentais, como a depressão, são a terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil. "Há uma série de doenças que a gente acha que são mais incapacitantes, mas o efeito da depressão sobre os brasileiros é muito grande", diz o médico psiquiatra Duílio Antero Camargo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e coordenador da comissão técnica de saúde mental da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anant).
Estímulo econômico
Segundo o diretor da IMS Health Marcello Monteiro, boas notícias no Brasil como o crescimento da economia, o aumento de renda dos trabalhadores e o envelhecimento da população estão entre os principais fatores que favorecem o aumento das ocorrências de tratamento dos “males urbanos” que, além de transtornos mentais e depressivos, incluem doenças como diabetes, hipertensão e obesidade.
“O forte processo de urbanização pelo qual o Brasil ainda passa estimula o consumo desse tipo de medicamento: as taxas de crescimento são menores que na Europa, por exemplo, onde essa urbanização já acabou”, diz Monteiro.
Pressão profissional
Para o médico psiquiatra Duílio Antero Camargo, do Hospital das Clínicas, elementos presentes nas relações de trabalho contemporâneas como concorrência, acúmulo de tarefas, falta de apoio social e desemprego aumentam a incidência de transtornos mentais entre os brasileiros.
“Com as mudanças hoje em dia da organização do trabalho, muitas das causas da depressão estão ligadas aos relacionamentos diante do trabalho, como o estresse ocupacional ou relacionado ao mercado, desemprego e o mundo organizacional”, diz o psiquiatra.
Desde o vestibular
Foi a ansiedade para escolher a profissão na época do vestibular que levou o relações-públicas Pedro Azeredo Boschi, de 31 anos, a iniciar tratamento com medicamentos antidepressivos sob prescrição médica. "Chorava muito e estava desanimado", diz.
Hoje desempregado, ele diz que a pressão e a dificuldade para conseguir trabalho
Preconceito e benefícios
Para a jornalista Cátia Moraes, 49 anos, autora do livro "Eu Tomo Antidepressivo - Graças A Deus!", da editora Best Seller, a ampliação do acesso a esse tipo de medicamento é positiva, desde que haja recomendação e acompanhamento médico. Na opinião dela, o uso de antidepressivos ainda é alvo de resistência e preconceito.
Cátia teve a adolescência marcada pela experiência de ver o pai, "alegre e extrovertido", perder o emprego e a vontade de viver por conta de uma depressão severa. Hoje, ela lamenta a escassez e a ineficiência das opções de tratamento disponíveis na época.
"Fizemos na época todo tipo de tratamento: choque, psquiatria. Naquele tempo, nos anos 70, não se falava em depressão ou antidepressivo. Ele morreu quando eu tinha uns 15 anos, de um AVC", diz.
Há um preconceito em relação a esses medicamentos como não há em relação a outros. Se alguém faz tratamento para diabetes, problemas no coração, hipertensão, ninguém questiona"
Quando a própria Cátia começou a apresentar crises de ansiedade, angústia e taquicardia, no final dos anos 90, ela resistiu a iniciar o tratamento, mesmo com a recomendação de seu psquiatra.
"Foi se criando um bicho-papão. A gente via meu pai indo a médico e tomando aquele monte de remédio que não adiantava nada. Eu tinha preconceito (em relação a antidepressivos)", diz.
O uso dos medicamentos, garante, melhorou radicalmente sua qualidade de vida e lhe deu mais energia e foco. "Eu trabalhei a minha vida inteira abaixo da minha capacidade", avalia.
Peso no orçamento
O tatuador Cezar Augusto Marchetti, de 31 anos, começou em
"Eram medicamentos caros, todos são", diz Cezar que, desde que foi morar sozinho passou a buscar os medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), mediante a apresentação da receita médica.
"Gastava uns R$ 80, R$ 100 por mês. Sem condições", conta Marchetti, que desde o ano passado cortou os antidepressivos e manteve apenas o uso de calmantes algumas vezes por semana. "Parei porque os efeitos colaterais, como a tremedeira, me atrapalhavam no trabalho", diz.
O preço do Lexapro, que está entre os dez medicamentos mais vendidos no Brasil, segundo a IMS, varia de R$
“Tristeza pontual não é doença e no entanto está sendo medicada”, diz o especialista"
"As primeiras vezes em que eu prescrevi antidepressivos, há cerca de 20 anos, alguns pacientes vieram para devolver a receita porque não dava para comprar, eram muito caros. Hoje eles são vendidos a preços acessíveis", conta o psiquiatra Duílio Antero Camargo, do Hospital das Clínicas.
Consumo exagerado
Na avaliação do vice-diretor do Hospital Dia do Instituto de Psquiatria do Hospital das Clínicas Elko Perissinotti, é preciso saber diferenciar um quadro de depressão clínica de tristezas pontuais naturais do ser humano antes de buscar apoio nos medicamentos.
“Remédio a gente deve tomar quando a gente está doente, e de preferência bastante doente. Não existe nenhum remédio no mundo para nenhuma doença que só tenha efeitos benéficos”, afirma.
Para Perissinotti, o uso de antidepressivos tem sido sobrevalorizado por pacientes e médicos, o que pode trazer riscos para a saúde e sequelas emocionais.
sábado, 3 de outubro de 2009
SUICIDALIDADE

Flávio Mussa Tavares
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
DEZ MITOS, medos e dúvidas sobre a PSIQUIATRIA
Somos seres compostos por uma alma, espírito e corpo. Logo, ainda que estejamos plenamente restaurados do ponto de vista espiritual, somos humanos e podemos ser acometidos por problemas que atingem nossa alma: depressão, medo, angústia, dentre outros. A conversão a fé cristã nos restaura espiritualmente, com uma nova natureza espiritual viva para Deus, entretanto, não apaga instantaneamente nossos traumas do passado, personalidade, conflitos familiares e dificuldades emocionais. Um psiquiatra ou psicólogo pode nos ajudar a melhorar mais rapidamente destes problemas.
Mas, psiquiatra não é médico de louco?
De fato, o profissional mais qualificado para tratar casos de loucura é o psiquiatra. Entretanto, a psiquiatria é uma especialidade médica ampla, tendo várias áreas de atuação: depressão, ansiedades, fobias, transtornos do sono, transtorno bipolar, distúrbios da sexualidade, transtornos alimentares, demências e dependência química, dentre outros transtornos. Além disso, a psiquiatria é uma especialidade médica como qualquer outra, amparada por estudos clínicos universalmente aceitos e praticados.
Entretanto, muitas pessoas por preconceito deixam de consultar um psiquiatra, fazendo com que doenças de baixa gravidade se tornem doenças graves, prejudicando a recuperação futura do paciente.
Psiquiatras dopam as pessoas com remédio.
No início do uso das medicações em Psiquiatria alguns fármacos tinham elevado potencial sedativo e grande número de efeitos colaterais. Com os avanços da medicina e melhor conhecimento dos transtornos mentais foi possível realizar tratamento com menor número de medicações e efeitos colaterais. Entretanto, todos os medicamentos podem apresentar efeitos adversos, tornando a consulta com um especialista fundamental.
As medicações psiquiátricas viciam e geram dependência.
Em torno de 80% dos transtornos mentais apresentam manutenção da cura após a suspensão das medicações. Entretanto, alguns transtornos mentais podem demandar o uso contínuo das mesmas. Neste caso, é importante lembrar que não tomar as medicações pode trazer prejuízos em várias áreas no dia a dia do paciente: relacionamentos, trabalho, família, finanças, etc. Importante lembrar que aceitamos com muita facilidade o uso crônico de medicações para hipertensão, gastrite, diabetes, dores, etc., mas, não aceitamos o uso crônico de medicações psiquiátricas, mesmo quando elas trazem grandes melhorias em nossa qualidade de vida.
Como confiar em um psiquiatra se ele não comprova as doenças com exames?
A origem dos transtornos mentais é complexa: fatores genéticos geram uma predisposição que pode ou não evoluir para um transtorno mental, dependendo da personalidade, traumas, conflitos, qualidade de vida, e outros pontos do funcionamento mental do paciente. Essas alterações genéticas e no comportamento geral do paciente não são evidenciadas em exames (tomografia, ressonância e exames de sangue) tornando o diagnóstico psiquiátrico altamente dependente de uma boa entrevista clínica. Eventualmente, um psiquiatra pode solicitar exames por suspeitar que doenças orgânicas estejam causando sintomas psiquiátricos, ou como ajuda no diagnóstico psiquiátrico.
Os psiquiatras mudam e confundem a mente das pessoas.
O objetivo do tratamento psiquiátrico é ajudar as pessoas a terem alívio e melhora, ainda que parcial, no seu sofrimento e funcionamento mental. O psiquiatra não interfere nos gostos e preferências dos pacientes, respeitando profissionalmente suas preferências sociais, espirituais, ocupacionais, sexuais, ainda que possa fornecer auxílio e orientações pertinentes a estas áreas.
Mas tratar com um psiquiatra não é falta de fé ou não acreditar que Deus pode curar?
Creio, particularmente, que Deus pode curar as pessoas. Esta cura pode ocorrer de forma direta e sobrenatural: o chamado milagre. Entretanto, Deus concede sabedoria aos médicos e a cura pode ocorrer por meio da ação deles. A ação de Deus na vida de cada ser humano é altamente particular, e com um propósito específico para cada um, fazendo com que experiências de alguns não sejam experiências de todos.
Os psiquiatras são estranhos e misteriosos, não explicam as doenças aos pacientes.
Os psiquiatras geralmente estão abertos aos pacientes e a tirar dúvidas, como qualquer outro médico. Às vezes, algumas informações não são transmitidas por não ser o melhor momento e por gerar ansiedade nos pacientes. Além disso, em alguns casos, o psiquiatra recorre a família do paciente, para que possa formar uma rede forte em sua recuperação.
Psiquiatras gostam de internar pacientes em hospícios por longo tempo e até para a vida toda.
Infelizmente, por longo tempo, os pacientes psiquiátricos foram internados em condições precárias em hospícios e casas de repouso, excluídos da sociedade e da família. Tal prática foi mudada por um movimento mundial, chamado Anti-manicomial, que denunciava exageros e defendia um tratamento psiquiátrico sem exclusão social e com humanização. Há leis que defendem os pacientes de tais práticas. Entretanto, os psiquiatras podem indicar uma internação eventualmente, como qualquer outro médico, dependendo da gravidade de cada caso, proporcionando um convívio social e familiar ao paciente tão logo quanto possível.
O tratamento psiquiátrico é muito caro.
Uma pessoa com transtorno mental pode ter grandes prejuízos em seu trabalho, relacionamentos, família e espiritualidade. Estes prejuízos podem trazer outras grandes conseqüências: perdas financeiras, perda de emprego, conflitos conjugais e em relacionamentos em geral. Logo, os benefícios de um tratamento efetivo superam sobremaneira os custos de tratamento
sábado, 15 de agosto de 2009
O diagnóstico clínico da depressão
JULLIANE SILVEIRAda Folha de S..Paulo
Uma meta-análise de 41 estudos de dez países (envolvendo mais de 50 mil pacientes) mostra que somente 47% dos casos de depressão são diagnosticados no atendimento primário (durante uma consulta com um clínico-geral, por exemplo) e que há falso diagnóstico da doença em 20% dos casos.
O estudo, publicado na edição on-line do "Lancet", avaliou trabalhos desenvolvidos em países europeus, além de nos EUA, no Canadá e na Austrália. "Essa questão [do diagnóstico] tem gerado um debate duplo. Existem afirmações de que a depressão é subdiagnosticada, e há a posição contrária -segundo a qual a depressão é exageradamente diagnosticada pelo fato de os pacientes tenderem a se identificar como deprimidos e os clínicos do atendimento primário aceitarem isso", afirma o psiquiatra Marco Antônio Brasil, integrante do conselho consultivo da Associação Brasileira de Psiquiatria.
O número de afetados pela depressão no Brasil segue dados mundiais: 12% dos homens e 20% das mulheres terão a doença em alguma fase da vida. Em geral, nos serviços de atenção primária a incidência de depressão varia de 10% a 15% dos pacientes avaliados. "É uma taxa muito elevada, um problema de saúde pública. Em ambulatórios de cardiologia, os índices sobem para 20%", diz o psiquiatra Renério Fráguas Júnior, supervisor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O falso diagnóstico pode ocorrer quando o paciente apresenta sintomas facilmente confundíveis com depressão -caso de uma tristeza profunda por uma perda importante ou estresse. Isso pode levar a tratamentos desnecessários.
"Quando há treinamento, pode ocorrer excesso de diagnóstico. Mas mesmo pacientes [sem a doença] com alguns sintomas depressivos podem ter a qualidade de vida comprometida, com mais dificuldade para tomar decisões ou para se concentrar, por exemplo. Isso não quer dizer que tenham de tomar remédio, mas que eles precisam ser cuidados de alguma forma", pondera o psiquiatra.
Subdiagnóstico
No entanto, de acordo com os especialistas, o subdiagnóstico é muito recorrente e mais preocupante. Para Geraldo Possendoro, psiquiatra e professor de medicina comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a sobrecarga do serviço público também contribui para dificultar o diagnóstico precoce. "A consulta costuma ser muito rápida, o que faz com que o clínico foque somente na área dele", diz.
Segundo Brasil, é necessária a formação dos médicos generalistas para que o diagnóstico de depressão seja feito mais precocemente. "O deprimido não procura um psiquiatra, até por preconceito. Ele vai ao clínico, ao neurologista. .."
O suporte de um psiquiatra no atendimento primário pode ser necessário para que os clínicos aprendam a identificar sintomas de depressão. No entanto, a formação somente teórica não é suficiente para capacitar os médicos generalistas. "Além disso, é preciso dar supervisão, discutir os casos reais desses pacientes. É preciso um psiquiatra para discutir casos de dúvida", acrescenta Brasil.
sábado, 30 de maio de 2009

CRISTIANE SEGATTO, IVAN MARTINS, ANDRES VERA, MARCELA BUSCATO E MARIANA SANCHES
REVSTA ÉPOCA 30/05/2009 (link no fim)
INTERNAÇÃO
E o pai o levava de
carro para
a clínica
ali no Humaitá numa
tarde atravessada
de brisas e falou
(depois de meses
trancado no
fundo escuro de
sua alma)
pai,
o vento no rosto
é sonho, sabia?
Quando o escritor Ferreira Gullar publicou em 1999 o poema “Internação” (acima), já era um veterano na convivência com doentes mentais. Quem fez a observação sobre o vento foi Paulo, seu filho mais velho, que hoje tem 50 anos. Ele sofre de esquizofrenia, doença caracterizada, entre outras coisas, por dificuldade em distinguir o real do imaginado. Desde os anos 70, Gullar tenta administrar a moléstia. Fazia o mesmo com Marcos, o filho dois anos mais jovem, que também tinha esquizofrenia e morreu de cirrose hepática em 1992. Remédios modernos permitem que pessoas como Paulo passem longos períodos em estado praticamente normal. Sem alucinações, sem agitação, sem agressividade. Mas o tratamento só funciona se o doente tomar os medicamentos antipsicóticos todos os dias e na dose certa. Isso nem sempre acontece. O resultado são os surtos, quando o paciente se torna quase incontrolável.
Pode cometer suicídio ou agredir quem está por perto. Nesses momentos, esses doentes costumam precisar de internação. “Dói ter de internar um filho”, diz Gullar, hoje com 78 anos. “Às vezes, não há outro jeito.”
No Brasil, estima-se que haja 17 milhões de pessoas com algum transtorno mental grave – como esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo. Em algum momento, eles podem precisar de um hospital psiquiátrico. Encontrar uma vaga, porém, tornou-se uma tarefa difícil.
Nos últimos 20 anos, quase 70% dos leitos psiquiátricos do país foram fechados. Sem conseguir quem os ajude a cuidar dos doentes, pais e irmãos afirmam ter várias dimensões de sua vida pessoal comprometidas, dos compromissos de trabalho às amizades. É o que revela uma pesquisa feita em 2006 em Minas Gerais com 150 famílias com pessoas atendidas nos Centros de Referência em Saúde Mental. Em muitos casos, os doentes em surto fogem sem deixar rastro. Podem acabar embaixo dos viadutos. O aumento da população de rua nas grandes cidades não é fruto exclusivo da desigualdade social. Uma pesquisa feita em 1999 com moradores de rua em Juiz de Fora conclui que 10% deles eram psicóticos sem assistência.
“As famílias, principalmente as que não têm recursos, não têm mais onde pôr seus filhos”, diz Gullar. “Eles viram mendigos loucos, mendigos delirantes que podem agredir alguém. O Ministério da Saúde tem de olhar para isso.” Gullar decidiu expor publicamente um problema que não é só seu. Nas últimas semanas, escreveu três artigos sobre o assunto em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. “Não pretendo liderar movimento algum. Sou um cidadão que tem uma tribuna e pode falar sobre o que está errado.”
Ele afirmou, no primeiro texto, que a campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia. Foi o suficiente para fazer eclodir uma controvérsia latente. Nos dias seguintes, dezenas de leitores enviaram cartas ao jornal. Representavam dois grupos. O primeiro, em apoio a Gullar, aponta as razões fisiológicas da doença mental e considera que a internação é um instrumento necessário nos momentos de surto.
O segundo, contra ele, afirma que os doentes devem ser atendidos em Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Nesses locais, o paciente recebe medicação e acompanhamento semanal. A ideia é atendê-lo sem retirá-lo do convívio da família e da comunidade. Para esse grupo, mesmo nos momentos de crise, o doente deve ser atendido nos Caps. Ele passaria alguns dias internado na própria instituição (ou em hospitais comuns, com alas psiquiátricas) e depois voltaria para casa. “O hospital é um lugar de isolamento, funciona como uma prisão. As pessoas vão e não voltam”, diz Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia. “Algumas famílias querem que a pessoa fique internada. É a ideia da instituição como depósito.”
Gullar se ofende com comentários como esse, que ouve desde o final dos anos 80, quando a reforma psiquiátrica que levou à situação atual começou a ser discutida no Brasil. “Essas pessoas não sabem o que é conviver com esquizofrênicos, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Elas têm a audácia de fingir que amam mais a meus filhos do que eu.”
Um dos maiores críticos da falta de vagas para internação psiquiátrica, o poeta Ferreira Gullar conta a ÉPOCA a experiência de ter convivido com dois filhos esquizofrênicos - o que ainda está vivo mora hoje num sítio em Pernambuco.
Cristiane Segatto
SEM OPÇÕES
Ferreira Gullar diz que as famílias sem recursos não têm onde pôr filhos com doenças mentaisO poeta Ferreira Gullar, 78 anos, teve dois filhos com esquizofrenia. Paulo, 50 anos, vive num sítio em Pernambuco há cinco. Marcos, que tinha um quadro mais leve da doença, morreu em 1992, de cirrose hepática. Recentemente, Gullar escreveu três artigos no jornal Folha de S. Paulo sobre a falta de vagas para internação psiquiátrica. A reação dos leitores chamou atenção para uma das maiores controvérsias da psiquiatria: o que fazer com doentes mentais em estado grave? Gullar concedeu a seguinte entrevista a ÉPOCA em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro (confira ao final desta página um vídeo com trechos da conversa).
ÉPOCA - A lei federal 10.216, aprovada em 2001, não proíbe a internação de pacientes em hospitais psiquiátricos, mas estimulou a redução de leitos. Por que decidiu falar sobre essa lei agora?
Ferreira Gullar - Antes da aprovação da lei, soube do que consistia o primeiro projeto. Para internar uma pessoa, a família precisaria pedir autorização de um juiz. Felizmente isso foi retirado do texto final. Imagine o que é ter em casa um garoto em estado delirante - às vezes falando sem parar da noite até o dia seguinte. Os pais tentam dar remédio, tentam conversar e nada funciona. Nessa situação, o único recurso é internar. Você sente que a pessoa está saindo do controle e pode fazer uma loucura qualquer. Imagine ter de aguardar autorização de um juiz para internar um paciente numa situação de emergência. Que juiz? Aquele que nunca encontramos na justiça eficiente que temos? Imagine o desastre que isso seria.
ÉPOCA - Mas por que decidiu escrever neste momento?
ÉPOCA - O doente precisa ficar vigiado dentro de casa?
Gullar - Ninguém aguenta uma pessoa em estado de delírio dentro de casa. Só se ninguém trabalhar, todo mundo ficar em volta do doente. E se for uma pessoa agressiva? Tem que internar. Nenhum pai e nenhuma mãe internam seus filhos contentes da vida, achando que se livraram. Não estou dizendo que a lei foi feita para perseguir as pessoas. Não vou imaginar uma coisa dessas. Ela foi feita com boa intenção. Mas de boa intenção o inferno está cheio.
ÉPOCA - O senhor acha que a internação em hospitais psiquiátricos é o melhor tratamento?
Gullar - Ninguém é a favor de manicômio ou de encerrar uma pessoa pelo resto da vida. Isso não existe há muito tempo. Mas hoje as famílias sem recursos não têm onde pôr seus filhos. Eles vão para a rua. São mendigos loucos, mendigos delirantes. Podem agredir alguém. É imprevisível o que pode acontecer. O Ministério da Saúde tem de olhar isso. O hospital-dia é uma boa coisa. Mas para o doente ir para o hospital-dia ele tem que querer ir. Quando entra em surto, é evidente que não vai querer ir para o hospital-dia. Dizer que os doentes serão encarcerados é terrorismo.
ÉPOCA - Qual a sua opinião sobre a visão do movimento de luta antimanicomial?
Gullar - Esse pessoal não diz explicitamente, mas eu sei que para eles não existe doença mental. Por que falam em psiquiatria democrática? Existe urologia democrática? A psiquiatria democrática pressupõe que as pessoas internam seus parentes para cercear a liberdade deles. Segundo essa linha, o cara não é doido. Ele é um dissidente. Isso vem da época das drogas, da época dos Beatles, da época em que as pessoas diziam “tu tá pinel”. O que era isso? A classe média cheirava cocaína e ia parar no Pinel. Não eram doidos. Mas, levada a uma overdose, a pessoa pode entrar num estado de delírio. Esse pessoal acha que a máfia de branco cerceia a liberdade das pessoas. Pessoas que são dissidentes da sociedade burguesa. A psiquiatria democrática considera que a sociedade é que é doente e reprime aqueles que discordam dela.
ÉPOCA - Por que o sr. diz que isso é um marxismo equivocado?
Gullar - A raiz ideológica da psiquiatria democrática é a ideia de que não existe doença. A sociedade é que é culpada porque é burguesa. Quando eu estava exilado em Buenos Aires, nos anos 70, fui conversar com os médicos no hospital onde meu filho Paulo (hoje com 50 anos) havia sido internado depois de um surto. Uma médica veio conversar comigo e disse que o problema não era do meu filho. Era da família e da sociedade. Disse para ela: então me interna.
ÉPOCA - Paulo estava com você no exílio?
Gullar - Nessa época, sim. Um dia ele teve um surto e sumiu. Foi encontrado em estado totalmente delirante e foi internado. A médica chamou a mim e a minha mulher para conversar. Eu disse: coração adoece, rim adoece sem que a sociedade seja culpada de nada. O cérebro é o único órgão que não adoece por si? A sra. não acha que uma pessoa pode nascer com uma deficiência fisiológica no cérebro? O que está por trás de tudo isso é uma visão equivocada.
ÉPOCA - Quando seus filhos receberam o diagnóstico de esquizofrenia?
Gullar - Os dois começaram a falar disparates e a se comportar de maneira anormal. Isso se manifestou quando tinham 15 ou 16 anos. A doença foi precipitada pela droga. Era um período que cheirar cocaína, fumar maconha e consumir LSD estavam na moda. Surgiram anormalidades, mas eu não fiz nada. Atribuía o comportamento deles às drogas.